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ALERTA PARA A EDUCAÇÃO
Por que será que na área educacional brasileira, com as exceções que apenas confirmam a regra, quase tudo anda a passo de tartaruga, sem uma mínima preocupação para com os amanhãs nacionais, parecendo até que os executivos da área carregam na mão somente um grande carimbo, sem criatividade alguma nem compromisso social com milhões que estão à procura de futuros mais redentores para seus derredores comunitários? O acidente acontecido com o Bondinho de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, tudo faz crer, foi consequência de uma omissão fiscalizatória do setor público, uma simples gota d’água num oceano de irresponsabilidades sociais tamanho família, todo o trágico acontecido servindo apenas para dois ou três dias de noticiários alvoroçados, depois disso tudo caindo no esquecimento de uma sociedade civil ainda muito pouco cidadã, hedonista e incrivelmente autofágica.

O reflexo de todo esse marasmo bur(r)ocrático pode se retratado numa historieta de fundo bíblico. Sem tirar nem por, repasso-a para os leitores deste portal muito lido:

“Roboão recebeu mensagem do Criador: os habitantes estavam trelando demais, merecendo castigo. O castigo: chuva de 40 dias e 40 noites, até deixar coberta toda a superfície da região. Só se salvariam os dotados de objetivos sinceros e pares de animais. Extasiado, Roboão percebeu que Ele o escolhera para gerador de uma nova Humanidade! Mas como não conhecia construção naval, contratou um homem prático, o Noé, de boa índole, ficando ele como presidente do empreendimento. Roboão selecionou os carpinteiros, um pouco mais que o necessário por causa das férias, faltas, doenças e feriados. E foi dormir tarde, depois da festança promovida pela família, comemorando o início do projeto e sua nomeação. Com direito a aparecer no noticiário televisivo local e nacional. Arregimentou depois seis auxiliares de tesouraria, cinco supervisores, dez auxiliares de serviços gerais, além de treze serventes para a copa e dez mocinhas para o cafezinho, além de oito assessores diretamente a ele subordinados. O empreendimento cresceu imediatamente em instalações físicas e pessoal. As equipes possuíam ambiente de trabalho, posto que oito grandes cabanas, com divisórias e ar-condicionado, foram erigidas, restando apenas a conclusão do salão de jogos e da sala de vídeo. A sensação da organização era uma das recepcionista, sobrinha do Roboão. De saia quase da largura do cinto, ela demonstrava uma habilidade incomum em mostrar as coxas, deixando ver a renda da sua calcinha transparente. No sétimo adiamento do projeto, percebeu Roboão a necessidade de ampliar o quadro de pessoal, nele sendo inseridos nove arquivistas, sem a exigência de qualquer escolaridade. Aproveitando o otimismo, assinou convênio com a Escola de Carpintaria, objetivando o fortalecimento da Confederação dos Construtores de Barcas de Grande Calado, recentemente instituída, ele na presidência.  As preocupações de Noé aumentaram quando ele verificou que a organização já contava com 12.858 contratados, oitenta e cinco por cento deles lotados na área-meio. Alertado para o desastre, Roboão ensaiou uma desculpa para livrar-se de Noé, contratando mais trezentos auxiliares, com salário acima da média geral, com sessenta dias de férias anuais, tíquete-refeição, vale-transa, seguro-saúde. participação nos lucros e aposentadoria subsidiada. Uma tática que calou a boca de alguns descontentes. Encarecendo a vigésima segunda prorrogação, Roboão recebeu uma resposta lacônica: ‘Elevação das águas em andamento. Prazo final improrrogável’. Aturdido, convocou uma reunião geral, inclusive com a equipe de Controle de Qualidade Industrial, recém chegada de um congresso, no outro lado da montanha. A conclusão, unânime, culpou mais uma vez o Noé pelo ritmo do projeto, com o agravante dele jamais ter apresentado diploma de doutorado em instituição de notório saber. Na saída, Noé apenas contou com o apoio de dois companheiros, que lhe fizeram companhia, convencidos da sua idoneidade profissional. Findo o último prazo, uma chuva forte se abateu sobre a região, inundando a área do empreendimento. E quando tudo estava coberto pelas águas, Roboão e equipe trepados em cima de uma árvore aguardando a morte, um barco surgiu no horizonte. E na proa, numa tabuleta toscamente afixada, podia-se ler: Arca de Noé”. 

Já quase às portas da morte, Roboão percebeu que de nada adiantava seus títulos pós-doutorais, sua gravatas lustrosas e sua pose de “QI gota serena” para quem os que, como ele, não souberam trabalhar o futuro com as dinâmicas ferramentas decisórias do presente. E tardiamente lamentou, se penitenciando, não ter seguido uma das múltiplas recomendações de Peter Drucker, que ele nunca tinha lido: “o planejamento estratégico não é um conjunto de truques nem um punhado de técnicas. É pensamento analítico e comprometimento de recursos para a ação.” E ficou choramingando pelos cantos, à beira da falência múltipla dos órgãos, percebendo a inutilidade de ficar rodeado de bajuladores de pouca enxergância, que o tornaram sem noção das janelas de oportunidades situadas debaixo do seu nariz.

O saudoso Sérgio Porto, o nunca esquecido Stanislau Ponte Preta, dizia que o Brasil tem muitas iniciativas e poucas acabativas. E as continuativas?

E o jornalista Mino Carta, da Carta Capital, explicita com maestria o retrato brasileiro no seu último editorial: “A maioria dos brasileiros não possui a consciência da cidadania e até hoje 1% da população é dona das terras férteis. Temos um povo resignado e uma elite, salvo raras exceções, exibicionista, ignorante, mal-educada e terrivelmente provinciana. ... Não é por acaso que quaisquer estudos, pesquisas e estatísticas sobre ensino exibem a precariedade do próprio”.

No Brasil, para um sem-número de Roboões, existem pouquíssimos Noés.
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Fernando Antônio Gonçalves é professor universitário e pesquisador social

(Publicado em 15.09.2011, no Portal da Globo Nordeste, blog BATE & REBATE)
Fernando Antônio Gonçalves

 

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