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ALÉM DOS PROVINCIANISMOS RELIGIOSOS
Espetáculos deprimentes à parte, quando candidatos às últimas eleições presidenciais brasileiras e líderes religiosos de várias denominações cristãs quase se lamberam, uns, e se esbofetearam, outros tantos, para gáudio e desespero de patuleias metidas a crentes travestidas de muita ignorância e gigantescos faniquitismos hipócritas, uma leitura esclarecedora muito auxiliará àqueles que buscam entender as convergências e diferenciais entre as principais religiões do mundo.

De autoria de um PhD em estudos de religião, pela Harvard University, Stephen Prothero, o livro As Grandes Religiões do Mundo, editora Campus 2010, “explora as diferentes respostas que cada uma das religiões oferece para as diferentes perguntas que elas mesmo fizeram”. E incentiva a leitura de uma maneira instigante: “com este livro, o leitor descobrirá por que a ideia de unificação religiosa não passa de uma quimera que não conseguiu tornar o mundo um lugar mais seguro e também entenderá como as doutrinas, rituais, mitologias, leis e experiências de cada religião afetam a vida social, econômica, política e militar de um país”.

Das oito religiões estudadas por Prothero – Islamismo, Cristianismo, Confucionismo, Hinduísmo, Budismo, Yorubá, Judaísmo e Daoísmo – o islamismo e o cristianismo são as que mais despertam a ira dos ateus, embora nenhuma delas consiga mais de um terço do hoje muito competitivo mercado religioso global, de altíssimos faturamentos e escassas espiritualidades. Segundo o autor, o islamismo é, atualmente, a mais poderosa das religiões do mundo, posto que, nos últimos cem anos, a porção cristã declinou, em vez de crescer, passando de 35% em 1900 para 33% nos dias de hoje. No mesmo espaço de tempo, o contingente muçulmano se elevou de 12% da população mundial em 1900 para 22% na primeira década do presente século. Segundo dados do World Religion Database, o islamismo está crescendo 33% mais rápido que o cristianismo, favorecido pelas elevadas taxas de natalidade em países onde o islã predomina.

Na Introdução, Prothero declara que, nos anos 1960, era muito frequente ouvir que “todas as religiões são belas e verdadeiras”, afirmação que remonta a 1795, quando do lançamento da obra All Religion are One, do poeta inglês William Blake. E denuncia: “Alguns acadêmicos ainda insistem em afirmar que religiões antagônicas como, por exemplo, o hinduísmo e o islamismo, ou o judaísmo e o cristianismo, são, por algum milagre da imaginação, essencialmente a mesma coisa. O resultado é que essa visão simplista acaba ressoando na câmara de eco da cultura popular, servindo para fermentar, entre outras coisas, a franquia multimilionária de O Código da Vinci, de Dan Brown.” 

Uma outra declaração muito difundida é considerada por Prothero como perigosa, desrespeitosa e não verdadeira, muito embora agradável e atraente. É a que proclama que “O essencial e o básico de todas as religiões são os mesmos. A diferença está apenas no não essencial”. Uma afirmação que se encontra distanciada da realidade, motivada por uma rejeição daquela visão missionária que explicita que apenas você e os de mesma convicção que a sua adentrarão ao paraíso.  E Prothero conclui: “Esse pensamento teológico ingênuo de um grupo tornou o mundo mais perigoso ao tentar vendar nossos olhos ao confronto entre as religiões que nos ameaçam por todo canto. Está na hora de sairmos da toca do coelho e voltarmos à realidade”. E a conclusão não poderia ser diferente: “Fingir que as religiões do mundo são a mesma coisa não torna nosso mundo mais seguro. Como todas as formas de ignorância, isso torna nosso mundo mais perigoso.”

Para crentes e não-crentes, um balizamento indispensável para os estudos  desenvolvidos: olhar para o que as religiões efetivamente são, sem abrir mão de uma análise a mais cristalina possível, admitindo sempre que a falta de compreensão das diferenças acarreta violência, nunca paz. Compreendendo as pessoas religiosas nos seus melhores e piores traços, com muito realismo, reduzindo as ingenuidades e redobrando as atenções para as diferenças entre piedades e fanatismos.  

Antes das conclusões, Prothero ressalta no Cap. 9 – A Encruzilhada do Ateísmo – que o ateísmo sempre pertenceu às elites e não às massas, até o século XII sendo quase nula sua influência na história do mundo. Até hoje, o ateísmo fora da Europa é insignificante. Pesquisas recentes indicam a Europa Ocidental com 9% de ateus convictos, a América Latina com 3%, o Oriente Médio com 2% e a América do Norte com apenas 1%. Teve até um ex-presidente brasileiro que perdeu uma eleição para prefeito de São Paulo por ter declarado que era ateu.

Imagino que o ateísmo está se tornando uma espécie de seita religiosa, buscando pregar uma utopia pós-religiosa, através de um humanismo amplamente revigorado. Mas também acredito piamente que os militantes ateus muito estão contribuindo para um mais que inadiável desabestalhamento religioso mundializante, quando a responsabilidade social planetária ficará amplamente respaldada numa solidariedade que independa da crença manifestada por cada um, respeitadas as diferenças e com ampla fraternidade para com os não-crentes, também filhos queridos de uma Criação que é infinitamente dialética. Graças a Deus.

(Publicada em 04.11.2010, no Portal da Globo Nordeste, blog BATE & REBATE)
Fernando Antônio Gonçalves

 

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