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ADVERTÊNCIAS DE NOTÁVEL
Os mais distraídos já ouviram falar em vague brune (onda marrom)?  É como vem sendo chamada, na França, a atual expansão fascista. Segundo noticiário, “a expressão deriva de ‘peste brune’, praga marrom, nome dado pelos franceses ao nazismo durante a Segunda Guerra, em referência à cor do uniforme dos soldados do Reich”.
 
Num jornal sulista de grande circulação, o FSP, um texto do sociólogo Michael Löwy me chamou atenção: “Dez teses sobre a ascensão da extrema direita europeia – o novo fascismo espreita o Velho Continente”. Segundo ele, “discurso com que esquerda explica o crescimento do fascismo pela via da crise econômica reduz o fenômeno e deixa de lado suas raízes históricas”. Ei-las, resumidamente:
 
1. O crescimento espetacular, na Europa, da extrema direita, um fenômeno sem precedentes desde os anos 30, contaminando com suas ideias a direita clássica e parte da esquerda social-liberal. O caso francês é o mais grave: o avanço da Frente Nacional ultrapassou todas as previsões, até as mais pessimistas.
 
2. A extrema-direita é muito diversa, desde os partidos abertamente neonazistas até as forças burguesas perfeitamente integradas no palco institucional. O que possuem em comum: nacionalismo excessivo, xenofobia, racismo e ódio contra imigrantes e ciganos, a islamofobia, a misoginia, o autoritarismo, o desprezo pela democracia e a eurofobia.
 
3. É erro dos mais grosseiro acreditar que o fascismo e o antifascismo são fenômenos do passado. O fascismo não se resumia a um único modelo: o franquismo espanhol e o salazarismo português eram bem diferentes do modelo italiano e do alemão.
 
4. A crise econômica que atormenta a Europa desde 2008 favoreceu mais a extrema-direita do que a esquerda radical. Mas a crise econômica não explica tudo: em Portugal e na Espanha, dois dos países mais atingidos pela crise, a extrema direita continua marginal. Enquanto na Suíça e na Áustria, nações poupadas pela crise, a extrema direita racista ultrapassa com frequência os 20%. É preciso evitar as explicações economicistas que a esquerda vem propondo.
 
5. Fatores históricos persistentes: uma grande e antiga tradição antissemita em certos países; a persistência de correntes colaboracionistas desde a Segunda Guerra Mundial; e a cultura colonial, que impregna atitudes e comportamentos, mesmo após a descolonização.
 
6. O conceito de “populismo” não é de modo algum de dar conta do fenômeno “povo”, servindo apenas para disseminar a confusão. O termo, na Europa, é cada vez mais vago e impreciso.
 
7. As tendências da esquerda, com raras exceções, têm subestimado estupidamente o perigo. E com argumentos apenas economicistas não conseguem desarmar a ofensiva ideológica racista, xenófoba e nacionalista da extrema direita.
 
8. Nenhum grupo social está imune à “peste brune”. Pequenos burgueses, desempregados, parte da classe trabalhadora e juventude podem se contaminar com bastante facilidade. Na França, um alto percentual alcançado pela Frente Nacional aconteceu em zonas rurais que nunca viu um só imigrante, os ciganos sendo menos de 20 mil em todo território francês.
 
9. O grande capital não tem interesse em sustentar movimentos de extrema direita, tratando-se de mais uma equivocada visão economicista da esquerda. A razão é simples: a esquerda ignora que “o grande capital pode se acomodar em todos os tipos de regimes políticos, sem muitas preocupações”.
 
10. Não há receita mágica para combater a extrema direita. “É preciso se inspirar, mantendo certa distância crítica, nas tradições antifascistas do passado; mas é preciso também saber inovar para responder às fórmulas atuais do fenômeno”.    
 
Estamos vivenciando dias de  turbulência bastante significativos. E o fenômeno é universal, com características mais marcantes nos países menos desenvolvidos, detentores de  imaturidades múltiplas em quase todas os seus setores político-administrativos. E a mais densa das imaturidades é a imaturidade cognitiva, matriz mãe de quase todas as demais, posto que uma das causas primeiras de todo e qualquer atraso civilizatório.
 
Muitas das pessoas que perdem a capacidade de acompanhar os principais fatos históricos da humanidade, por acomodação, desconhecimento, preconceito, conivência ou conveniência, logo  principiam a mitificar  os seus próprios ensinamentos, adquiridos formal e informalmente há décadas passadas. Desapercebidas das funções pedagógicas que se postam inerentes às estratégias de transformar estruturas arcaicas em estruturas contemporâneas, arrefecem  os ânimos dos mais novos, teoricamente os mais aptos para captar os basilares princípios estratégicos de toda mudança.
 
Dados recentes da UNESCO revelam que uma criança nascida hoje, em condições normais de temperatura, pressão e consanguinidade, ao completar 50 anos  possuirá uma gama notável de conhecimentos, 95% dos quais ainda não fazem parte do atual acervo mundial.  Este dado mostra uma irreversível evidência: em tempo algum pretérito, a história da humanidade adquiriu  velocidade tamanha. Os acontecimentos se estão processando numa rapidez espantosa, o que faz aumentar enormemente a responsabilidade daqueles que detêm comandos decisórios na gestão do setor público, por inúmeros tido e havido como uma área de reconhecida lentidão, avessa quase sempre às mudanças que se processam em seu derredor e, até mesmo, nos seus próprios interiores.
 
Na nossa sociedade brasileira, é preciso ampliar a noção acerca dos nossos erros e acertos, das nossas omissões e fragilidades comportamentais, das  indecências sociais que redundaram no atual estado de coisas. Sem carecer precisar quem acertou ou errou, posto que os erros e os acertos são de todos, necessitamos compreender definitivamente que um pequeno buraco pode afundar um grande navio.  E o  barco é um só, e está à deriva, necessitando  de reparos imediatos e profundos, sem os quais não chegará a porto algum. E a reflexão do filósofo marxista Slavoj Zizek é pra lá de oportuna para os dias atuais, às vésperas das eleições de outubro: “Nossa situação agora é diametralmente oposta à do século XX, quando sabíamos o que tínhamos e o que queríamos fazer (estabelecer a ditadura do proletariado etc.), mas precisávamos esperar com paciência o momento certo em que a oportunidade se ofereceria. Agora, não sabemos o que fazer, mas temos de agir, porque as consequências de não agir podem ser catastróficas. Vamos ter de nos arriscar no abismo do novo. Em resumo, nossa época não é para quem tem nervos fracos”.
 
(Publicada em 13.10.2014, no Jornal da Besta Fubana, Recife, Pernambuco)
 Fernando Antônio Gonçalves
 
 

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