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ACHADO CIDADANIZADOR
Dentre minhas preferências literárias, aprecio temas vinculados à Segunda Guerra Mundial (1939-1945). E a leitura do diário de uma garota judia de catorze anos que vivia no gueto de Lodz, na Polônia, encontrado perto das ruínas dos crematórios de Auschwitz-Birkenau pela médica do Exército Vermelho Zinaida Berezovskaia, em junho de 1945, me comoveu bastante, fortificando minha ojeriza radical pelas práticas violentas que afetam crianças e adolescentes.
 
Somente tornado público sete décadas depois do final da guerra, O Diário de Rywka: encontrado em Auscwitz em 1945, publicado pela primeira vez 70 anos depois, Rywka Lipszyc, São Paulo, editora Seguinte, 2015, retrata os temores, horrores, sonhos e esperanças de uma quase criança marcada por tragédias acumuladas pela perda dos pais, deportações de dois irmãos e uma vida em condições bastante precárias ao lado de primas.
 
Rywka, depois que o gueto se transformou num campo de trabalhos forçados, depois da ocupação da Polônia pelos alemães em 1939, perdeu os pais, dois dos seus irmãos foram deportados, ela passando a viver com duas primas em situação muito precária. Suas angústias, pesadelos e sonhos, registrados entre 1943 e 1944, veio a se constituir no documento mais importante sobre a vida da população judaica confinada em Lodz.
 
O diário de Rywka retrata a vida dos judeus em Lodz entre 1943 e 1944: medos, trabalhos forçados, fome e miséria. Mas também mostra os modos de resistir e protestar, como uma estratégia de dar sentido a um derredor horripilante. As memórias encontradas é mais que um mero documento histórico. É um testemunho da força e da fé de uma adolescente que queria sobreviver, apesar de todos os sofrimentos causados por uma perseguição criminosamente urdida por um regime assassino, quando “até a falta de comida tornava os habitantes do gueto mais animais do que humanos”.
 
Um trecho do diário bem revela o espírito forte de uma quase criança de 14 anos, que bem percebe o lado benéfico das Ciências Humanas: “Na nossa escola (nem é mais uma escola, porque seu nome foi mudado para fach kurse (curso vocacional), não teremos mais aulas de hebraico ou matemática, só cinco horas de costura e uma hora de desenho técnico. Não são permitidos livros nem cadernos de trabalho. ... Isso machuca tanto (para eles não somos humanos, apenas máquinas)”. Uma tremenda bofetada século XXI nos executivos governamentais que menosprezam a construção de bibliotecas de formação humanísticas, apenas preocupados em robotizar seres humanos nos mecanismos das técnicas.
 
Segundo Judy Janec, num dos anexos do diário, “a última passagem do diário de Rywka Lipszyc foi escrita em 1944”, embora daí para frente um enigma histórico persiste: qual o destino último de Riwka? O parágrafo último do texto de Janec, diretora da Biblioteca Tauber Holocaust e dos Arquivos do JFCS Holocaust Center em San Francisco de 2004 a 2013, se mostre esperançoso: “Se algum leitor tiver informações que possam ser úteis em nossa busca por Rywka Lipszyc, por favor entre em contato com o Jewish Family and Children’s Service Holocaust Center, 2245 Post Street, San Francisco, Califórnia, 94115 (www.jfcs.org).    
 
Dois textos complementam O Diário de Rywka, além de uma análise de Alexandra Zapruder. . O primeiro deles, de Fred Rosenbaum, intitula-se A Cidade de Rywka, o Gueto de Rywka, e analisa porque Lodz se transformou no gueto mais isolado e oprimido de toda a Europa ocupada pelos nazistas. Até antes da Primeira Guerra Mundial, Lodz era reputada como centro de gigantesca pluralidade cultural, dotada de um portentoso dinamismo econômico. Em 1900, os judeus constituíam quase um terço da  população, também a metade dos homens de negócio de Lodz. O antissemitismo em Lodz se intensificou depois da morte do chefe de Estado da Polônia Josef Pilsudski, que durante seu governo de nove anos buscou proteger as minorias nacionais. Lodz foi o primeiro, e o de maior duração, dos duzentos guetos estabelecidos pelo III Reich, também classificado como o mais impenetrável. Em 1942, setembro, aconteceram as deportações mais cruéis, quando milhares de judeus foram tirados de suas casas e levados para outros locais, inclusive os que se utilizavam as famigeradas câmaras de gás. 
 
O segundo texto, de autoria da historiadora tenta solucionar o mistério que até hoje impera sobre o destino de Rywka Lipszyc. Inclusive respondendo uma questão até hoje repleta de mistério: “Como o caderno de Rywka sobreviveu desde a chegada dela a Auschwitz-Birkenau, passando pelo rígido inverno polonês, até a primavera de 1945, quando foi encontrado pela médica soviética Zinaida Berezovskaia?
 
A leitura atenta de O Diário de Rywka seguramente adensará a aversão dos que ainda não aquilataram devidamente a criminosa gestão do III Reich. E a resistência de uma quase adolescente pela sobrevivência pessoal e dos demais companheiros de infortúnio. O testemunho escrito dela é imorredouro: “A fome sempre teve um impacto muito ruim em mim, e continua tendo. ... É uma sensação terrível a de passar fome.”
 
Um livro que não deve apenas ser lido. Mas referenciado como de alto teor cidadanizador. Próprio dos desafios de um século ainda obtuso, descalibrado inteiramente (trump)iano.
(Publicada em 14.11.2016, no site do Jornal A Besta Fubana e no www.fernandogoncalves.pro.br) 
Fernando Antônio Gonçalves
 

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