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A NAU DOS INSENSATOS
De uns meses para cá, uma série de textos estão sendo editados com muita sapiência preventiva, parecendo até querer chamar a atenção de todos para os tempos sombrios que mundialmente se avizinham. Um deles, A Nau dos Insensatos, em língua portuguesa pela vez primeira, foi lançado em agosto passado pela editora Octavo, São Paulo. De autoria de Sebastian Brant (1457-1521), foi originalmente escrito em 1494 como um grande poema satírico, onde se aponta, com arguta ironia, as falhas e besteiradas cometidas pela nobreza e vulgo da época, das cutucadas não ficando isento ninguém, nem Igrejas, nem Justiça, nem Universidade, nem as demais instituições predominantes de então.

No livro, excessos e desleixos, avidez por dinheiro e falta de escrúpulos, perda da fé e desinteresse pelo cultivo do intelecto merecem primorosas alfinetadas, bem como arrogâncias, grosserias, leviandades, indolências, mentiras, gulas e pusilanimidades diversas. Insensatezes apontadas em 112 capítulos, tornados prosas, na versão para o português com maestria efetivada por Karin Volubuef, docente da Universidade Estadual Paulista, com doutorado concluído em 1996 com a tese Romantismo na Alemanha: um estudo da prosa de ficção, na área de Língua e Literatura Alemã da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. 

O autor de A Nau dos Insensatos, Sebastian Brant, com doutorado pela Universidade da Basileia, onde também atuou como docente, ao falecer era o autor alemão mais renomado em toda Europa, sendo seu texto, em vinte e sete anos, merecido quinze edições, fato raro face a invenção recente da imprensa, 1440.

Às vésperas de um novo quatriênio político brasileiro, a leitura  de A Nau dos Insensatos seguramente favorecerá os recém eleitos dirigentes nacionais, dos executivos e dos legislativos, na tomada de falas e iniciativas isentas de bobajadas. O livro também muito servirá para jornalistas e repórteres, dirigentes esportivos e especialistas vários. E ainda docentes e discentes de instituições de ensino superior, muitos dos quais não suportam explanar sem energia elétrica, acostumados que estão nas exposições exclusivamente focadas no espelhado pelos data-shows existentes.

No capítulo Dos Insensatos Velhos, Brant parece estar se dirigindo a algumas vetustas figuras políticas que teimam em continuar na ribalta, mesmo que sob os cuidados de emergências médicas. Escreveu ele: “Turvei muitas águas, exercitei-me sempre na maldade e agora lastimo não poder continuar exercendo-a como nos dias de outrora. Meu filho certamente há de concluir o que deixei por fazer e, sendo filho meu, é preciso dizer que o canalha terá igualmente uma conta a pagar e tem um lugar assegurado na nau dos insensatos!”.  O João Silvino da Conceição, que se encontrava na Livraria Cultura por ocasião da aquisição do livro, ao ouvir a leitura do trecho acima, entusiasmou-se: - Seu menino, o que você leu não é tal e qual o que está acontecendo em todas as regiões brasileiras? Onde a hereditariedade das oligarquias parece não mais se findar, tornando-se fato corriqueiro, como se fosse lei geral?

Sobre os abiscoitados da época, Sebastian Brant é alfinetador por derradeiro, fazendo João Silvino identificar semelhança com umas “otoridades” brasileiras de variados setores. Eis o que no livro do Brant se encontra escrito: “No mundo há muitos néscios que se comportam de forma insensata; se fossem esfolados, nada haveriam de entender e apenas abanariam as orelhas. São completos paspalhos, mas esperam que se lhes reconheçam a sabedoria! Agem como bobos e ninguém aprecia suas maneiras” ... “Pode-se encontrar muito palerma desprezível que é tão moroso e indeciso que nunca chega a terminar qualquer das coisas que começa”. 

Aos que imaginam o dinheiro acima de todas as coisas, o pensar contido n’A Nau dos Insensatos é pra lá de balizador: “Os imbecis do dinheiro encontram-se por toda parte, de modo     que não é possível saber o número dos que preferem ter dinheiro ao invés de honra”. ... “Vou dizer claramente o que penso: apenas é enforcado o ladrão pobre; a mosca-varejeira não é capturada pela teia de aranha, ali apenas o mosquitinho fica aprisionado”. ... “Quem diz que nada lhe falta, exceto dinheiro no bolso, está atolado na asneira. Falta-lhe mais do que é possível dizer, começando por não reconhecer que é muito mais pobre do que supõe.”

O João Silvino até já bolou uma brincadeira. Vai reunir sua patota na comunidade, comprar uns guaranás bem gelados, pedir à patroa para fazer uns bolinhos de bacalhau, daqueles que engrandecem o paladar, para com eles listar o maior número possível de insensatos brasileiros, pondo-os no baú dos mais perniciosos, para que não mais prejudiquem nenhum filho querido da Criação. Incluída num dos primeiros lugares da lista aquela paulista que buscou esculhambar a gente nordestina, desejando seus quinze minutos de fama. Como piniqueira universitária internética.

Depois eu conto os demais escolhidos, uma lista capaz de até ofuscar os premiados do Oscar....
 
(Publicada em 06/12/2010, no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife – PE)
Fernando Antônio Gonçalves

 

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